quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

AMOR E REVOLTA – CAPÍTULO XV








Max e Gabi saíram juntos. Ele se surpreendeu com a conversa dela: diferente das garotas que ele conhecia, Gabi era brilhante, tinha uma inteligência sagaz e fazia observações que ele talvez pudesse ler em algum romance de escritor famoso. Ele nunca tivera tanto prazer em conversar com alguém antes. De repente, ele se viu pensando em conversar mais com ela, ao invés de simplesmente transar – embora a possibilidade o agradasse. 

No final da noite, eles estavam rindo e marcando novo encontro. E ele a beijou. Não tentou transar com ela ainda. Achou que ainda poderia vê-la de novo antes de tentar, pois ela era uma garota legal, e ele não queria descarta-la tão rapidamente. 

Gabi se surpreendeu com Max: ele não era tão cretino quanto ela pensara! Mas ela sempre se lembrava dos conselhos da falecida avó: “Cuidado com homens bonitos demais! São um pedaço de mal caminho.” Riu ao pensar no quão antiquado aquele pensamento soaria nos dias de hoje. 
Mas ela sentia que precisava contar a Marvin o que estava acontecendo. E passou uma mensagem para ele:

“Marvin, tenho que te contar uma coisa. Quero que saiba por mim antes de saber por outra pessoa.”

“De novo??? Você está se mostrando uma mulher de muitas revelações!”

“Eu estou saindo com o Max.”

Silêncio do outro lado da linha. Ela mandou um ponto de interrogação após alguns segundos. Ele respondeu:

“Não poderia ter escolhido pior. Esse cara é um comedor sacana, não respeita garota nenhuma.”

“Posso julgar por mim mesma.”

“Como se conheceram?”

Ela pensou antes de responder, e achou melhor não dizer a verdade – que tinham se conhecido quando ela foi falar com Jane a respeito dele, e acabou dizendo algumas verdades sobre a própria Jane. 

“Por acaso, em um barzinho.”

“Esse cara é um babaca!”

“Eu sei, mas eu sou esperta. Estou só vendo como é.”

“E vai ver com a cara no chão.”

Ela hesitou, diante da grosseria dele. Encerrou a troca de mensagens com um dedo médio em riste. Não gostava que lhe tratassem como se fosse criança. Marvin jogou o telefone sobre a cama, e saiu, batendo a porta. No corredor, passou por Melissa, e despejou:

-Sabia que a Gabi está saindo com o babaca do “Max Sol?”

Melissa deixou o queixo cair:

-Como assim?! Ela não me falou nada! Desde quando?

-Não sei. Saíram ontem e marcaram para sair de novo.

-Mas ele vai fazer pedacinhos do coração dela!

Melissa pensou no quanto Gabi podia ser doce e romântica, e no que um cara como Max faria com ela. 

-Fale com ela. Ela me deu o maior fora agorinha, e eu não sei o que fazer. Vou dar uma volta de bike para relaxar. Tchau!

E ele se foi, deixando uma Melissa atônita parada no corredor. 

Melissa imediatamente pegou o telefone; quando Gabi atendeu, ela logo disparou:

-O que você tem na cabeça? Geleca?

-Ah, você já sabe... não. Estou apenas me divertindo. Se não posso ter quem eu quero, me divirto com o cara errado enquanto procuro o cara certo.

-Gabi, você viu o que a irmã dele fez com o meu irmão. A escolha é sua.

-Eu sei, obrigada por me lembrar, amiga, mas eu estou bem. 

-Ele vai fazer picadinho do seu coração. Temo por você.

-Melhor temer por ele. Eu sou dura na queda. E não estou apaixonada, estou só... curiosa.

E as duas continuaram a conversa, com Gabi contando tudo sobre sua saída com Max. 
Em cima da bike, Marvin se viu pedalando em direção à casa de Jane. Parecia que a bicicleta conhecia o percurso de cor, e que seguia independente dele. Parou a alguns metros do portão, e observou o muro alto que isolava a casa. Deveria tocar a campainha?
Mandou uma mensagem:

“Estou aqui na porta.”

Esperou ansiosamente, mas passaram-se quase dez minutos e ela não respondeu, apesar de ter visualizado a mensagem. Ele enxugou o rosto molhado de lágrimas e continuou pedalando sua bike para longe dali. Sentiu que tinha cometido um erro, mas disse a si mesmo que não voltaria a cometê-lo de novo.

 Jane recebera a mensagem, e sentira o coração dar saltos no peito. Porém, pensou em tudo o que Gabi lhe dissera. Decidiu que seria melhor não abrir o portão. 

De repente, ela largou o telefone e saiu, descendo as escadas descalça e indo ao jardim, que atravessou correndo. Abriu o portão a tempo de ver a bicicleta de Marvin fazendo a curva, ao longe. Ela se encostou no muro, deixando que as lágrimas rolassem livremente. “É melhor assim”, pensou. 


Em seu apartamento, Gertrude agarrou a pasta com o dossiê sobre a família de Jane e saiu. Ia devolvê-lo a Luis, e pedir que sumisse com ele. Já que seu neto não tinha mais nada a ver com aquela família, não via necessidade em usá-lo. Queria destruí-lo ela mesma, mas passaria horas picando papel, pois não seria seguro queimar tudo em um apartamento ou jogar em uma lixeira qualquer. Luis dissera-lhe que tinha um triturador de papel em casa, e ela achou melhor levar o documento para que ele o destruísse. Colocou-o em uma bolsa de papelão, pois não cabia em sua bolsa à tiracolo. 
Antes, ela decidiu dar uma passadinha na casa da filha para ver como as coisas estavam indo. Não havia ninguém em casa, mas ela entrou com sua chave e deixou a bolsa de papelão no canto do sofá, junto à parede. Helena chegou com Teófilo, e todos foram para a cozinha conversar enquanto preparavam um bolo de chocolate e café. À noitinha, Rafaela e Cadu chegaram do trabalho, seguidos por Melissa e um Marvin triste e taciturno. Todos se juntaram na copa para lanchar, devorando o bolo que Helena e Gertrude haviam preparado. 

Gertrude acabou se esquecendo do que saíra para fazer, e entregou-se às conversas enquanto as horas passavam. Depois, toda a família foi assistir a um filme juntos, no cinema próximo – inclusive Marvin, que não fazia aquilo há algum tempo. Rafaela sentiu-se feliz no escuro do cinema, tendo novamente a família ao seu lado. 

A bolsa ficou esquecida no canto do sofá. 

E quando Gertrude finalmente se lembrou dela, já passava das onze da noite, e ela estava em sua cama, pronta para dormir. Ela sentou-se na cama, dando-se conta da irresponsabilidade do seu ato. Imediatamente, telefonou à filha, mas ela provavelmente já tinha ido dormir, pois o telefone tocou muitas vezes e não foi atendido. Ela se lembrou que Rafaela desligava o celular durante a noite. Pensou em ligar para Melissa, mas achou que seria melhor esperar até de manhã, temendo que Marvin estivesse por perto e desconfiasse de alguma coisa. Tentou ligar para Luis, mas ele também não atendeu.

Gertrude estava preocupadíssima com o destino daquela pasta! Se ela caísse nas mãos do neto, ele com certeza ficaria furioso com eles todos, e isso poderia desencadear uma nova crise emocional. Se caísse nas mãos de Cadu, ele ficaria muito magoado e zangado por não ter sido informado sobre o que eles estavam planejando. Se falasse com Teófilo ou Helena, eles a chamariam de irresponsável e lhe passariam um sermão; não poderia dar a eles tal gostinho!

De repente, ela lembrou-se de Gabi. Passou uma mensagem para ela, dizendo onde a pasta estava, e pedindo segredo sobre o fato de ela tê-la esquecido ali. Gani riu ao ler a mensagem, e prometeu que a primeira coisa que faria na manhã seguinte, seria ir até lá e resgatar a pasta, destruindo seu conteúdo.
E assim o fez, logo de manhã. 

Ela esperava um ônibus para ir até a casa de Luis, onde entregaria a ele a pasta, mas enquanto estava no ponto do ônibus, Max passou em seu carro conversível, e vendo-a lá, ofereceu-lhe uma carona. 
Gabi ficou mortificada – afinal, tinha nas mãos documentos que poderiam acabar com a vida de seus pais e com a boa vida que o próprio Max e a irmã desfrutavam – mas aceitou a carona. Entrou no carro, agarrada à pasta, mas ele tirou-a dela e jogou-a no banco traseiro junto com a bolsinha que ela carregava.

-Para onde está indo, Gabi?

Ela hesitou:

-Na verdade... agora que encontrei você, eu não sei... acho que... 

Ele logo percebeu que a menina estava um tanto nervosa. 

-Tudo bem com você?

Ela mentiu:

-Sim, tudo! 

-Então... vamos dar uma volta! Depois eu te deixo aonde você estava indo.

Ela olhou para ele, que a encarava com um sorriso tentador, e concordou. Não faria mal dar uma voltinha naquele carrão ao lado daquele gato:

-Está bem. Vamos!

(continua...)





segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

AMOR E REVOLTA - CAPÍTULO XV







- O que a traz aqui, Gabi?

Jane sentou-se no sofá em frente a ela. Seu perfume invadiu o espaço. Gabi reparou nas unhas bem feitas, esmaltadas em branco leitoso, e na cor levemente bronzeada e dourada de sua pele perfeita. Os cabelos louros tinham sido presos em um coque que se desfazia em volta do rosto, destacando os olhos de um azul cristalino. Gabi sentiu-se ridícula em suas calças jeans stretch e camisa de malha branca e sem detalhes. 

-Vim por causa de Marvin. Eu poderia ter mandado um e-mail, mas precisava olhar para você.

Ela sentiu que as feições de Jane se dissolveram, e a máscara dela caiu. Gabi continuou:

-Quero saber se ainda estão juntos, ou se existe esta possibilidade.

Jane foi ríspida:

-Não. Pode ficar com ele, o caminho está totalmente livre pra você.

-Se ele me quisesse... mas ele quer você. Ele a ama. E ele está sofrendo.

Jane riu, olhando para o teto durante alguns instantes:

-E você, que é uma boa samaritana, veio aqui entregar o Marvin de bandeja para mim?

Gabi ficou furiosa, mas com a voz controlada e firme, disse:

-Na verdade, eu acho que você não o merece. É uma garota fútil, vazia, aproveitadora e egoísta. O Marvin merece coisa bem melhor, e nem estou falando de mim. Mas ele está sofrendo, e no mundo onde vivo, amigos ajudam amigos. Sei que é difícil para você compreender isso; afinal, não tem nenhum amigo verdadeiro, a não ser os que se juntam em volta de você feito moscas querendo, quem sabe, uma transa fácil ou desfrutar do seu dinheiro. Mas eu estou preocupada com o meu amigo. E vim aqui por ele.

Jane sentiu-se profundamente abalada pelo que Gabi lhe dissera, mas conseguiu recuperar sua máscara de frieza e responder:

-Para pedir que eu volte com ele? Foi ele que pediu que você viesse?

-Vejo que não o conhece mesmo! Ele nem suspeita que eu estou aqui. Só vim para saber se ainda existe – se é que alguma vez existiu – um resto de sentimento da sua parte por ele. Marvin jamais imploraria nada a você - (naquilo, ela mentiu) – pois ele tem dignidade. É... acho que ele precisa de alguma coisa que você não tem para dar, Jane.

Jane ergueu as sobrancelhas;

-E o que seria?

-Calor humano. Amor. Porque você nem humana é. Não passa de uma aberração. Uma criatura hermafrodita, como naquele filme de ficção científica, que se aproximava das pessoas para devorá-las, lembra? Você seus amigos esquisitos não têm nada a ver como Marvin. Dão suas festas esquisitas de nudismo tentando provar ao mundo que não têm preconceitos, mas massacram quem é diferente de vocês. Alimentam-se das almas dos outros, pessoas normais que cruzam seus caminhos, e que vocês chamam de preconceituosas. Desnudam seus corpos em frente ao espelho porque não suportariam desnudar as suas almas podres. Transam com todo mundo, mas não se entregam a ninguém. Se drogam para não perceberem o quanto são vazios, o quanto suas vidas são vazias e sem sentido. Falam em ajudar os necessitados enquanto criam empresas de fachada para lavar dinheiro sujo de drogas que traficam. Criam a imagem de caridosos e bonzinhos, envolvidos em causas justas pelo proletário, a fim de conseguirem votos para o bonequinho de vocês, o Deputado Tavinho, que os ajuda a limpar sua sujeira. Enfim, vocês são patéticos!

Jane sentiu-se muito magoada ao ouvir aquelas palavras, mas Gabi nem teve tempo de ver seus olhos encherem-se de lágrimas, pois levantou-se e saiu da casa sem olhar para ela. No caminho, as pernas dela tremiam; teria exagerado? Pelo menos, dissera tudo que estava entalado em sua garganta.
Depois que Gabi se foi, Jane permaneceu sentada no sofá, chorando copiosamente durante muito tempo. As lágrimas caíam aos borbotões, e os soluços sacudiam seu corpo inteiro. E na casa vazia, ninguém apareceu para consolá-la – embora os criados estivessem escutando atrás das portas – e ela sentiu-se muito só. 

Ficou recapitulando as palavras de Gabi durante muito tempo, e pensando no quanto ela estava certa: Marvin merecia coisa bem melhor. Finalmente, alguém tivera a coragem de dizer o que ela precisava ouvir a respeito dela mesma e de sua família. Não poderia odiar Gabi por isso. Ela apenas dissera a verdade, uma verdade que era óbvia para todos que os cercavam, mas que não era pronunciada porque ninguém queria perder as vantagens que desfrutavam sendo seus amigos e orbitando em volta deles. 

Sim, ela era patética. Sua família era patética. Durante todo o tempo, ela alimentara a ilusão de que estava ensinando Marvin a ser uma pessoa real, melhor, mais verdadeira e livre, enquanto tentava trazê-lo para dentro do seu mundo surreal e podre, onde ninguém era de verdade. Duvidou até da amizade de Juninho; afinal, ela estava pagando para que ele fosse com ela para Paris. Se ela não tivesse dinheiro, será que teria a amizade dele?  

Naquele momento, ela tomou uma decisão que modificaria toda a sua vida.


Enquanto isso, Rafaela e Cadu tentavam consolar o filho. A família estava sentada na sala após o almoço. Rafaela disse:

-Marvin, eu sei que pode parecer que o mundo acabou, mas Jane é seu primeiro amor. Ainda virão muitos, e quando isso acontecer, ela será só uma lembrança para você. seus sentimentos são muito intensos, e isso é normal na sua idade, mas você pode viver sem ela. Acredite em nós. 

Marvin segurava as mãos de seus pais, buscando a força que precisava. Compreendeu que eles sempre estiveram ao seu lado. Eram sua família, sua fortaleza. Nada valia mais do que aquela relação, que o encorajava a prosseguir sempre, mesmo diante das maiores dificuldades. Ainda sentia muito a falta de Jane – e iria sentir por um bom tempo – mas já acreditava que um dia poderia esquecê-la. Cadu disse:

-Meu filho, nós estaremos sempre aqui para você. Por favor, conte com a gente. Sei que nós nos desentendemos de vez em quando, mas olha... você e Melissa são a nossa vida. Faremos tudo por vocês.

E Marvin sabia que era verdade.

Na festa de natal, Marvin tentou se divertir, mas checava as mensagens a todo momento. Tinha mandado uma mensagem de natal para Jane, mas ela não respondeu. Ficou muito triste, mas pensou que, se ela não tinha respondido, talvez fosse porque já o tinha deixado para trás. 
Porém, o telefone de Gabi piscou na noite de natal; ela estava na cama, preparada para dormir após cear com sua família, quando a mensagem entrou; era Max. Ele a convidava para sair no dia 26. Uma lanchonete de comida australiana tinha sido inaugurada na cidade. Ela recusou o convite, mas ele respondeu com um emoticon triste: uma carinha chorando. Ela riu. Ele mandou nova mensagem, insistindo, de uma maneira muito amigável e sedutora. Ela aceitou; afinal, por que não? O que tinha  a perder? Ia sair com um cara lindo, ir a uma lanchonete cara. Se transassem, que mal haveria? Não pensava em se casar com ele. 


(continua...)








terça-feira, 30 de janeiro de 2018

AMOR E REVOLTA – CAPÍTULO XIV







Três dias depois, Paco e Tavinho tomavam um uísque no escritório. Após discutirem alguns negócios e planos para a  ONG de Sunny, que participou da reunião mas depois saiu para fazer compras, Jane surgiu na conversa deles. Paco falou sobre os planos da filha de estudar no exterior. Tavinho sentiu-se muito incomodado, pois gostava de vê-la e de estar com ela de vez em quando, mesmo que fosse para entregar-lhe a mercadoria – pacotes de drogas ilícitas que ela carregava até a ONG sem fazer perguntas. Lá, as drogas eram escondidas em local seguro e mais tarde, vendidas. No fundo, ele desconfiava que a menina sabia do que se tratava, mas preferia não se envolver e julgar as atividades dos pais. 

-O que? E você vai deixar que ela faça essa bobagem?

-Bobagem por que? Não estou entendendo...

Tavinho pigarreou, tentando disfarçar sua raiva:

-Ora... uma menina sozinha em um país estrangeiro...

Paco olhou-o com suspeita:

- Desde quando você se preocupa com a minha filha, Tavinho? E ela não vai sozinha; aquele amigo viadinho dela vai junto.

-O Juninho?  E o pai dele vai pagar por isso?

-Não; eu vou. 

-E por que você faria isso? Generosidade não é lá seu lema.

-Ora, amigo... você sabe que sim. Posso ser bem generoso. Inclusive, divido a minha cama com você de vez em quando.

Tavinho riu, mas quando seus olhos encontraram os de Paco, viu que ele não ria. Pelo contrário: parecia desconfiado e estava sendo irônico. Tavinho subira na vida com muito esforço, tendo que envolver-se em várias atividades ilegais para chegar aonde estava. E Paco o ajudara muito. Ele sabia muito sobre o amigo, mas não sabia de nada no qual ele mesmo não estivesse envolvido, e por isso, a sua inveja ainda não fizera com que ele acabasse de vez com a prosperidade da qual o amigo desfrutava. Mas o seu maior sonho, era justamente descobrir algo pelo qual Paco pudesse ser denunciado sem envolver a si mesmo. O olhar desconfiado do amigo parecia saber exatamente o que Tavinho estava pensando. Tavinho achou melhor mudar de assunto, deixando seu interesse por Jane de lado por enquanto:

-Vejo que você anda preocupado, Paco.

Paco ainda o fuzilou com os olhos por alguns segundos, antes de acender um cigarro e comentar:

-Verdade. Andam me investigando. E a você também.

-Como assim?

Tavinho moveu-se na cadeira, sentindo-se desconfortável de repente. 

- Alguns amigos hackers descobriram que andam pesquisando sobre nós por aí... na virtualidade. 

-Mas... quem poderia estar fazendo isso?

-Ainda não sabemos, mas vamos descobrir... 

Tavinho vociferou:

-Não será aquele moleque que anda com sua filha?

-O Marvin? Não. Ele não seria tão esperto. Gosta tanto da Jane, que mataria por ela, pode estar seguro. Apesar de que agora que você falou... ele não aparece há alguns dias. Vou perguntar a Sunny se ela sabe de alguma coisa, alguma discussão entre os dois.

-A Sunny? Duvido. 

Com um tom de voz desconfiado, paco perguntou:

-E por que?

-Porque Jane não é do tipo de menina que conta tudo para a mamãe. Resolve seus próprios problemas sozinha. Sabe o que quer.

-É... parece que você sabe muito sobre a minha filha. Mais do que eu mesmo.

-Entendi a ironia. Mas você tem que se lembrar de que eu conheço a Jane e o Max desde que nasceram. Bem, se ela for mesmo embora, talvez o Max possa fazer o papel dela.

Paco coçou o queixo:

-Não sei... meu filho é apenas um playboy alienado e viciado em dinheiro. Não acredito que esteja interessado em ajudar. Não gosta muito da ideia de trabalhar.

-Mas é um trabalho diferente. Quem sabe, o menino se interesse?

-Vou pensar no caso. 

Longe dali, Luis releu o dossiê que havia imprimido há alguns dias. Sabia que aquele documento poderia comprometer seriamente a família de Jane. Colocou-o em uma pasta a fim de entrega-lo a Gertrude, que o encomendara, naquela mesma tarde. Não o fizera antes – e arrumara algumas desculpas esfarrapadas para não fazê-lo – porque estava com medo de trair o amigo. Mas talvez, agora que Jane e Marvin não se falavam há cinco dias, Gertrude considerasse desnecessário tomar qualquer atitude. E foi o que ele disse a ela ao entregar-lhe os papéis impressos. 

Depois que ele saiu, Gertrude sentou-se com uma xícara de chá e começou a ler o material que tinha às mãos, o que consumiu-lhe algumas horas. Havia até mesmo imagens de Paco inspecionando as plantações de maconha. Onde aqueles meninos tinham conseguido tais imagens? Essas crianças de hoje podiam ser terríveis, ela pensou. Havia fotos de Jane entrando no carro de Tavinho; a placa podia ser lida muito bem. Gertrude teve pena da menina; afinal, era apenas uma adolescente. Mas definitivamente, ela não queria aquela menina envolvida com seu neto!

Acabou contando tudo à Helena, que concordou com ela e com o que ela estava fazendo. Aquela era uma das poucas vezes em que as duas concordavam a respeito dos netos e de problemas de família. Rafaela achou melhor não contar nada ao marido, pois achava que quanto menos pessoas soubessem daqueles documentos, melhor. 

Gertrude colocou os papéis na pasta novamente, deixando-a sobre a mesinha de centro, e foi dormir. 
Gabi, Luis e Melissa trataram de apagar os rastros da pesquisa de seus computadores, formatando-os e excluindo dados de navegação com a ajuda do amigo virtual de Luis, que prestou-lhes assistência remota e garantiu-lhes que ninguém jamais poderia rastrear as informações que tinham recolhido até os computadores deles. Gabi estava assustada demais, e achava que seria melhor se eles destruíssem os computadores, mas Luis disse-lhe que não era necessário. 

Marvin continuava triste por causa de Jane. Mas seu orgulho ferido não deixava que ele a procurasse. Principalmente porque ela não fizera nenhum movimento em sua direção, e ele ficara sabendo da viagem que ela planejava – sobre a qual não dissera nada a ele. Max tivera o mórbido prazer de passar uma mensagem para informa-lo. 

Marvin emagrecia a olhos vistos. Passava tempo com Luis, Melissa e Gabi, mas como se fosse um zumbi; não conseguia se divertir de verdade. 
E foi ao ver seu grande amor definhar diante de seus olhos, que Gabi decidiu tomar uma atitude a respeito: foi procurar Jane. Por mais que detestasse fazer aquilo, se Marvin ficasse feliz, estaria tudo bem para ela. 

O mordomo mandou que ela se sentasse e aguardasse um pouco. E enquanto o fazia, Gabi mexia em seu celular, sem saber que estava sendo observada por Max. Ele ia entrar na sala, quando deparou com a figura da menina sentada em seu sofá. Examinou-a: era do tipo que ele gostava de “pegar:” Fortinha, musculosa, cabelos ondulados. Bonita, mas não bonita demais. Em resumo: gostosa. Ele gostava de sair com meninas que considerava menos que ele, porque tais garotas faziam de tudo para agradá-lo, pois geralmente tinham baixa autoestima. Eram as melhores na cama: sempre diziam “sim” a tudo o que ele pedia para fazerem. E Max gostava muito de dominar. Ele se aproximou, sorrindo para ela. Gabi desviou os olhos do celular ao vê-lo de pé, diante dela:

-Oi. Acho que já nos conhecemos.

-Oi. Sou Gabi, amiga de Marvin. 

Ele era realmente bonito, ela pensou. Sua figura intimidava. Mas aquele sorriso e simpatia eram novos para ela. 

-Ele se inclinou, beijando-a nas maçãs do rosto:

-Oi, Gabi. Já nos vimos por aí. Mas eu ainda não tinha reparado no quanto você é bonita. 

Ela corou, respondendo:

-Você acha mesmo? Bem, obrigada.

Ele sentiu a baixa autoestima nas palavras dela, e gostou. Sentou-se:

-Vou fazer-lhe companhia até minha irmã chegar. Acredito que esteja aqui para falar com ela.

-Sim. 

-E posso saber do que se trata?

Ela olhou para ele, duvidando de suas verdadeiras intenções. Mas os olhos azuis maravilhos dele, e sua expressão desarmada, deram-lhe segurança para falar:

- Bem... eu queria saber como ela está. Porque o Marvin está malzão. Eles se separaram, sabe.

-É, estou sabendo. – ele forçou uma expressão sentida, mas por dentro, estava frio. – Todos aqui gostamos muito dele, e lamentamos. 

Na verdade, ninguém sequer tinha prestado atenção ao fato, ele pensou. Sunny estava envolvida em seus próprios fricotes, e o pai, mais preocupado em saber quem seria a próxima periguete que ele levaria para a cama. 

-Mas... por que você está preocupada com minha irmã? Não deveria estar preocupada com o Marvin?

Ela pensou ter sentido uma ironia na pergunta, mas ao examinar os olhos dele, a expressão falsamente doce  do rapaz a desarmou de novo:

- Eu estou por isso vim. Quero saber se não existe nenhuma possibilidade de eles voltarem. Quero saber para poder ajudar meu amigo. 

Naquele momento, Jane chegou. Ao ver Gabi, ergueu as sobrancelhas, surpresa, e disse com ironia:

-Me disseram que tinha uma menina querendo me ver. Jamais imaginei que fosse você, Gabi. 

Gabi ignorou a grosseria, respondendo:

-Boa tarde pra você também, Jane. 

Max trocou olhares com a irmã, e compreendeu que era hora de sair de cena. Mas antes, pegou o celular dela e anotou nele o seu número, enquanto dizia: 

-Me liga qualquer dia. Mas liga mesmo, hein? Quero te conhecer melhor.

Entregou o celular a ela e beijou-a mais tempo do que seria necessário bem perto da boca, movendo os lábios de forma sensual e fazendo com que Gabi se arrepiasse toda. 


(continua...)








quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

AMOR E REVOLTA – CAPÍTULO XIII








-Eu sou completamente apaixonado por essa menina, gente... estou literalmente de quatro. 

Gabi se encolheu. O joelho de Marvin tocava a perna dela acidentalmente, e ele nem se dava conta 
das emoções que aquilo causava nela. Marvin continuou:

-Mas parece que ela não se sente da mesma forma.

-Ela não gosta de você, irmão?

Melissa perguntou com tanta doçura, que até os amigos estranharam um pouco. Mas respondeu:

- Não é isso. Ela gosta, mas não do mesmo jeito. Jane é... um espírito livre. Ela sempre faz o que quer e não se compromete com nada, a não ser com seus próprios sentimentos e desejos. Ela foi criada assim.

Gabi não conseguiu se segurar:

-Em resumo: ela é uma egoísta!

Marvin olhou-a surpreso, mas não a contradisse. Nunca tinha pensado daquela forma antes. Talvez Jane fosse uma egoísta. Mas como arrancar aquela paixão de dentro dele? Gabi desculpou-se em seguida, mas ele a tranquilizou:

-Não, você pode estar certa, amiga. Ela é sim, um tanto egoísta, mas ao mesmo tempo... passa horas por semana na ONG, brincando com crianças. Também recolheu três cães abandonados em casa, e cuida deles com todo carinho. Ela tem um lado bom e generoso. Mas eu confesso que não é por este lado bom e generoso que eu me sinto atraído, é... pelo lado apaixonado, voraz, quase selvagem dela que eu estou de quatro. 

Luis concluiu:

-Ou seja, você gosta de transar com ela, e está confundindo isso com amor. Mas é só paixão, pura e simples.

Marvin riu:

-Simples??? Quem dera que fosse simples! Mas não é só paixão, Luis.

Gabi colocou a mão no joelho de Marvin, fazendo-o olhar para ela:

-Pois é. Quem dera que fosse simples. Acho que o amor é bem mais complicado do que a paixão, porque a paixão um dia acaba, mas o amor, ao contrário, é capaz de sobreviver às piores coisas. Duas pessoas podem não ficarem juntas por vários motivos, mas continuam se amando. Ou o amor não correspondido... este dói, mas pode não acabar nunca, mesmo quando aparece outra pessoa. 

Os três ficaram pensando no que ela acabara de dizer. Melissa falou:

-Eu nunca amei ninguém, nem nunca me apaixonei. E olha que já fiquei com uma porção de carinhas. Mas nunca por mais que uma semana. 

Luis opinou:
-O que você disse foi bonito, muito profundo, Gabi. Nunca pensei que você tivesse essa maturidade de sentimentos.

Ela corou; olhou para Marvin, que nada disse. Mas ele estava pensativo, considerando o que acabara de ouvir e pensando no que sentia por Jane: seria amor ou apenas paixão? E sentir amor doía menos do que sentir paixão? Só sabia que era forte, e que o deixava louco, ansioso e inseguro. Tinha muito medo do dia em que ficaria sabendo que ela tinha ficado com outro menino. E ele sabia que um dia, aquilo ia acontecer, pois ela nunca descartara aquela possibilidade. Era sincera a respeito. E o que ele faria, então? Aceitaria ou terminaria tudo com ela?

Melissa se levantou e escolheu uma música no aplicativo. Era uma canção que fazia parte da vida deles. Eles a tinham dançado no último aniversário de Luis, que tinham ido comemorar em uma danceteria. Os quatro ficaram envolvidos pela música, lembrando daquela noite, há quase um ano, quando eles eram os melhores amigos. A intimidade que tinham, a alegria de estarem juntos sempre. Melissa fizera aquilo de propósito, pois pretendia trazer o irmão de volta. Ela começou a dançar, e logo todos estavam dançando juntos, perdendo-se ao sabor da música. 

Quando a música terminou, eles se jogaram no sofá, rindo. Melissa disse:

-Sentimos sua falta, Marvin. Sentimos muito a sua falta. A vida é isso: momentos. Pessoas. Alegrias e tristezas que não podemos ignorar. Não nos deixe de novo, não nos abandone, porque nós sentimos a sua falta.

Marvin ficou surpreso, sem saber o que dizer. As emoções se misturavam dentro dele. Sabia que a irmã estava certa: ele havia abandonado aquele grupo: seus dois melhores amigos e sua irmã. Tantas coisas que já tinham vivido, tantas curtidas, saídas, risadas... ele era tão feliz quando estava com eles! Para onde tinham ido aquela inocência e leveza? 

Ele não se identificava com os amigos de Jane. Eram diferentes dele. Pareciam apenas tolerá-lo. Mal falavam com ele quando estavam juntos, referindo-se à Jane na maior parte do tempo, e respondendo ligeiramente quando ele lhes falava. Ele se sentia “de fora.” Mas mesmo assim, tentava entender-se com eles, e várias vezes os convidara para sua casa. Eles iam quando Jane ia também. Ele sentia que era quase hostilizado pelo melhor amigo dela, que era Juninho, o amigo gay. Todo mundo dizia que a amizade entre uma mulher e um amigo gay poderia ser muito profunda e verdadeira, e Marvin tentava se convencer de que as horas que os dois passavam juntos eram apenas por amizade. Mas Juninho – o mesmo menino que Jane beijara na boca ao chegar na escola, na primeira vez em que Marvin a vira – parecia ter ciúmes dele, ou não aprová-lo por algum motivo. Marvin tentava ser simpático com os amigos de Jane. E aquilo fazia com que ele se sentisse um pouco tolo. Mas ele faria qualquer coisa para fazer parte do mundo dela... mas valeria a pena? Pela primeira vez, ele se perguntava. 

Gabi quebrou o silêncio, cortando os pensamentos dele:

-Marvin, eu sei que não ajuda muito, mas tem uma coisa que eu quero que você saiba, e que já vem acontecendo há algum tempo, mesmo antes de você ficar com a Jane. Nem sei como começar, só sei que você deve saber. Porque tem a ver com você. Não acho que você tenha que fazer algo a respeito, só quero que você saiba!

-Fala logo, Gabi. Está me deixando nervoso!
Gabi sentiu o rosto ficar vermelho, e em seguida, muito pálido e frio. Respirou fundo, tomou coragem e confessou:

-É que eu... gosto de você. Estou apaixonada. Ou talvez eu te ame. É isso, eu te amo.

Marvin soltou a respiração de repente, deixando o queixo cair. Ele a olhou como se a enxergasse pela primeira vez na vida. Não conseguiu ver na menina que ele conhecia desde sempre, alguém por quem ele um dia pudesse se apaixonar. E Gabi leu aquilo na reação dele, nos olhos dele, e até mesmo no jeito com que ele pareceu desconfortável. Mesmo assim, ela sentiu um grande alívio por finalmente confessar o seu amor escondido. Até mesmo Luis ficou surpreso, pois apenas Melissa tinha conhecimento de como ela se sentia. 

Ele a chamou para fora, para ficar sozinho com ela. Os dois foram dar uma volta no jardim.

-Olha, Gabi, você sabe o quanto você é querida para mim. Uma amiga de infância, alguém muito importante na minha vida. Mas eu estou apaixonado por outra.

-Eu sei, e não quero que se sinta mal por isso. Fique tranquilo, não vou jamais assediar você ou cobrar alguma coisa. Só te disse porque eu quero que saiba. 

“Diabos”, ele pensou. “Por que isso agora? Já não chega tudo com o que estou tendo que lidar, e agora essa confissão fora de contexto e de hora? Não quero magoar uma amiga!” Ele passou o braço em volta do ombro dela, como sempre fazia quando estavam conversando e caminhando juntos. Mas daquela vez, ele se sentiu diferente, incomodado.

-Obrigada, Gabi. Saber que eu sou amado por você me deixa honrado e feliz, mas triste também, porque apesar de te amar como amiga, não posso te dar mais que isso. 

O rosto dela estava sereno e conformado. Ela concordou com a cabeça, e após dirigir a ele um pequeno sorriso, abraçou-o pela cintura e os dois voltaram para dentro da casa juntos, como bons amigos.

Dois dias depois, Marvin ainda não tinha feito contato com Jane novamente. Ele estava queimando de vontade de vê-la, mas o que os amigos lhe disseram – que ela era egoísta e que não o amava tanto – tinham exercido um efeito sobre ele.  Ela também não o procurou mais, embora estivesse muito triste. Pensou que talvez fosse melhor daquela forma.

Juninho, que esteve sempre com ela naqueles dois dias, notou o sumiço de Marvin e a tristeza dela. No fundo, ele estava aliviado por Marvin não estar por perto; não gostava dele. Achava que a amiga merecia coisa bem melhor. Marvin, ele pensava, não passava de um playboyzinho conservador, um machistazinho ainda não definido. Mas ver a amiga triste o deixava triste também. Juninho amava Jane, pois fora ela que o ajudara a dizer aos pais que ele era gay. Ela ficou do lado dele e segurou sua mão, e não soltou nem mesmo quando o pai teve um ataque de nervos – e desde então, parou de falar com o filho, embora vivessem na mesma casa e ele continuasse a pagar pelas despesas de Juninho. E era sempre Jane que segurava sua mão enquanto ele chorava. Mesmo a contragosto, ele perguntou o que tinha acontecido. Jane olhou para ele, acariciando a mão que estava pousada em seu joelho.

-Ele anda sumido, Juninho. Tivemos uma briga. Eu disse algumas coisas que não deveria ter dito... eu o magoei muito.
Juninho respirou fundo:

-Você gosta do bofe, não é?

-Gosto. E de um jeito que eu nunca gostei de alguém antes. Pela primeira vez eu pensei em ficar só com uma pessoa, em todos os sentidos.

-Ih... então é sério mesmo, amiga. Você nunca acreditou em fidelidade.

- Acho que eu percebi que quando a gente gosta realmente de alguém, não precisa de mais ninguém. Essa pessoa te completa em todos os sentidos. Se não for assim, não é de verdade.

-Já falou com a Sunny sobre isso?

Sunny também acolhia e aconselhava Juninho como se fosse seu próprio filho, e o menino a amava e respeitava por isso.

-Não acho uma boa ideia... minha mãe teria um gato pela boca se soubesse que eu estou cultivando pensamentos um tanto... conservadores. Com certeza tentaria me afastar do Marvin. 

-Não duvido. Mas acho que é você que tem que decidir isso. Bem, você sabe que eu não gosto muito do Marvin, mas se é ele que te faz feliz, então eu aprendo a gostar. Vai lá, menina, liga pra ele! 

Manda uma mensagem, faz qualquer porcaria!

Sunny tentou sorrir, mas não conseguiu. Ligar para o Marvin era o que ela mais desejava fazer. Mas ela sabia que no fim da história acabaria por magoá-lo. Ela sabia quem ela era, e quem ele era, e que os dois não poderiam ficar juntos sem que houvessem muitos desentendimentos e sofrimento.

-Obrigada, amigo, mas acho melhor deixar assim... sabe, ano que vem eu vou para a faculdade, e pretendo estudar em outra cidade. Quem sabe, em outro país. Por que insistir em algo que não pode dar certo? 

-Jura? Pensei que fosse tirar um ano sabático. Pelo menos, foi o que você me disse.

-Desisti. Acho melhor dar um tempo desse lugar, dessas pessoas e do Marvin.

-E de mim?!

-Você sabe que é bem-vindo se quiser vir comigo. 

-Então vamos para Paris! Vamos estudar belas artes lá! 

O pensamento louco e entusiasmado do amigo fez Jane rir de verdade:

-Sabe que não é má ideia? Talvez seja bom. Talvez você esteja certo!

-Então... quando partimos?

E então Jane começou a realmente considerar aquela ideia. 

(continua...)





segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

AMOR E REVOLTA – CAPÍTULO XII








-Gente, não sei o que é essa tal de Deep Web. Não é perigoso?

Gertrude tentava achar lugar para colocar a bandeja de sanduíches e sucos enquanto Luis, Gabi e Melissa estavam espalhados no tapete, os computadores na mesinha de centro. Havia uma semana que eles estavam envolvidos nas pesquisas, e já tinham feito várias descobertas comprometedoras a respeito da família de Jane. Luis sentia-se péssimo por achar estar traindo a confiança do amigo, mas ao mesmo tempo, sabia que ele estava também, quem sabe, salvando a integridade dele. Gabi respondeu:

- Pode ser, não sei. Mas esse amigo virtual do Luis nos passou um verdadeiro dossiê sobre a tal ONG que a Sunny administra. Nada confiável. Aliás, confiável é uma palavra que não cabe ali.

Melissa respirou fundo, a cabeça apoiada em uma das mãos:

-Pobre do meu irmão. Pensa que a família da namorada são anjos. Gente “alternativa” (ela fez o sinal de aspas) e livre. Imaginem que ele está começando um discurso de liberdade sexual que antes nunca tinha passado na cabeça dele, mas enquanto isso, ele mesmo só tem olhos para Jane. Mas eu sinto, nas poucas vezes em que ela vai lá em casa, que a recíproca não é verdadeira... 

-O que a faz pensar assim? – perguntou Luis.

-A maneira como ele fica em volta dela: “Quer um suco? Quer assistir a um filme? Quer isso, quer aquilo?” E ela parece nem se importar! Se comporta como se fosse uma princesa, e ele, um súdito. 

-Como ele não enxerga isso? – perguntou Gabi.

-Não sei como ele não enxerga uma menina tão bacana e inteligente como você, Gabi – respondeu Gertrude.

Gabi corou; seria assim tão óbvio para todos que ela estava completamente apaixonada por Marvin? naquele momento, Luis declarou, fechando o computador e começando a comer um sanduíche:

-Gente, acho que o que temos já basta. Vou imprimir hoje a noite mesmo. E depois, Dona Gertrude, o que a senhora vai fazer com tudo isso?

Gertrude deu de ombros:

-Ainda não sei... mas vou pensar.

Melissa tomou um gole de suco, e disse:

-Cuidado, vó. Pessoas assim costumam ser perigosas!

Enquanto isso, longe dali, Marvin e Jane estavam abraçados na cama dela, após transarem. Tinha sido o aniversário dela na noite anterior, e houve uma grande festa na casa. 

Ele a olhava apaixonadamente, enquanto ela mantinha os olhos presos no teto do quarto. Marvin sabia – mas não admitia – que ele estava bem mais apaixonado por Jane do que ela por ele, mas precisava acreditar que ela o correspondia da mesma forma; imaginar a vida sem a presença dela, sem tê-la entre os braços, era dolorido demais, e muito monótono. Estava acostumando-se às festas loucas dos pais de Jane, e até já começava a simpatizar um pouco com o Deputado Tavinho – não sem muito esforço, a pedido de Sunny e Paco. Ele faria qualquer coisa para não ficar longe de Jane. Mas aquele olhar distante, depois de tudo o que tinha acabado de acontecer entre eles, colocou-o em estado de alerta.

Marvin começou a acariciar uma mecha de cabelos dela, enrolando-a no próprio dedo:

-Jane... você gosta de mim? Mais do que antes, quero dizer...

Ela puxou o cabelo, levantando-se da cama e começando a vestir-se:

-Claro que sim. Acha que dividiria a minha cama com você se não gostasse?

Ele se ergueu, segurando-a e obrigando-a a olhá-lo de frente:

-Não estou falando de sexo. Falo de amor.

Ela deixou um riso sarcástico instalar-se no canto dos lábios sem querer, mas escondeu-o em seguida:

-Bem, o sexo é muito bom.

Tentou desvencilhar-se dele novamente, mas ele a segurou com força, erguendo um pouco o tom de voz:
-Jane! Não é isso!
Ela o olhou, deixando o olhar descer sobre o braço que a mantinha presa, e ele a soltou, levando as mãos à cabeça e começando a andar de um lado para o outro do quarto. Ela sentou-se à penteadeira, começando a escovar o cabelo:

-Não sei o que te encuca tanto, Marvin! Você tem sido o único cara com quem transo há... não sei... quase três meses! Deveria estar feliz. Isso nunca aconteceu antes.

-Pare! Você fala como se fosse uma... uma...

Ela se levantou, calçando as sandálias e olhando para ele furiosamente:

-Não se atreva a me julgar! Nunca escondi de você o modo como vivo, nunca fingi ser o que não sou! E se acha que vou dizer que vou te amar para sempre e jurar fidelidade, está muito enganado a meu respeito!

-Jane... mas você só tem 16 anos!

-Por isso mesmo! Quero ter o direito de escolher e viver a minha vida como eu bem quiser. Se você não está pronto, não posso fazer nada. Seja um escravo das convenções! Continue vivendo a vidinha que seus pais e avós caretas planejaram para você! Mas eu não estou nessa! 

Ouvir a maneira como ela se referia à sua família feriu-o profundamente:

-Deixe meus pais e avós de fora! Eles são minha família, e eu os amo!

-Então vá ficar com eles. Mas não tente suicídio outra vez!

Ele ficou em silêncio, tentando digerir o que acabara de escutar. Depois, começou a se vestir lentamente, sem nada dizer. Ela balançou a cabeça, arrependida do que dissera:

-Escute, Marvin, eu não quis...

Mas ele já batia a porta do quarto atrás dele. 

Jane ficou ali, sentada, tentando pensar em como alguém como ela podia ser tratado daquela forma. Afinal, havia dezenas de meninos que adorariam estar no lugar que Marvin ocupava em sua vida. Ela sabia muito bem que, na escola, bastaria estalar os dedos e teria quem quisesse em sua cama. E em sua vida. Mas desde que conhecera Marvin, aquilo parecia não fazer sentido. Era só com ele que ela gostava de estar, e não conseguia sentir desejo por mais ninguém, nem mesmo... 

Ela não deixou que o seu pensamento se completasse. Mas ele voltou à tona, obrigando-a a enfrenta-lo. Ela sentia uma mistura de desejo e repulsa por Tavinho. Há poucos dias, ela tinha se lembrado, devido a um sonho que tivera, da maneira que ele a tocava quando ela era criança, e de como ela gostava. Lembrou-se de um dia em que ele a tocara de tal forma, que após a onda de prazer que sentira, ela o abraçou – estava sentada no colo dele – e disse que queria se casar com ele quando crescesse. Quantos anos ela tinha? Cinco? Seis? Só sabia que era bem pequena. E que ele era um homem muito, muito bonito, e que ela adorava o perfume que ele usava naquela época e que ainda usava nos dias atuais. Ele não era deputado ainda, mas já ocupava um cargo como vereador. Era um dos melhores amigos de seu pai, e frequentava a casa, e ela o tinha visto sair do quarto de seus pais várias vezes de manhã cedo. 

Uma noite, ela acordou  e olhou pela greta da porta do quarto dos pais, e o que viu fez com que ela arregalasse os olhos de surpresa. Assistiu a tudo fascinada. Ao perguntar à mãe, na manhã seguinte, o que eles estavam fazendo juntos, recebera a seguinte explicação:

-Papai, mamãe e Tavinho são muito amigos, há muito tempo, e nós nos gostamos muito. Por isso, às vezes dormimos juntos e fazemos coisas divertidas que nos deixam felizes. 

Ela perguntou, após uma pausa para pensar:

-Um dia eu posso brincar com vocês também?

A mãe riu alto, e acariciando a cabeça dela, respondeu:

-Pode brincar sim, mas não com o tio Tavinho,  papai ou mamãe. E só pode quando for mais velha.

Por algum motivo, ela sentiu que não deveria mencionar à mãe o fato de que ela e Tavinho já brincavam daquela forma há algum tempo, ou correria o risco de que a brincadeira acabasse. Ela gostava dele e da forma como ele brincava com seus órgãos sexuais – ambos – dizendo que, se fosse ela, nunca se livraria deles, pois eles a tornavam especial. Depois que ela operou, optando pelo sexo feminino, ele demorou muito tempo para voltar a tocá-la, e não durou muito. 

Até recentemente, quando ele a segurou no carro, dizendo que um dia se casaria com ela. Ela sentiu nojo. Mas depois, em seu quarto, ela caiu no sono e se lembrou de tudo, e acordou sentindo coisas por Tavinho que não gostaria de sentir. Naquela tarde, convidou Marvin para o seu quarto e os dois ficaram lá o dia todo, até a manhã seguinte.

O que ela sentia por Marvin era diferente, e deixava-a com medo. Sabia como controlar o desejo sexual, ou como resolvê-lo. Mas não sabia lidar com as emoções que tomavam conta dela ao pensar em Marvin ou estar com ele. Aquilo a deixava muito insegura. 

Marvin chegou em casa arrasado. Ao passar pela sala de estar, deparou com Melissa, Luis e Gabi sentados no sofá, rindo alto. Seus pais estavam trabalhando. Ele parou um momento na soleira da porta, e ficou pensando sobre há quanto tempo não ficava com seus velhos amigos. A resposta óbvia que surgiu e o espantou, foi: “Desde que conheci Jane.”

Os três pararam de rir quando o viram, e ficaram olhando para ele. Gabi bateu no lugar ao seu lado, dizendo:

-Oi, Marvin. Venha sentar aqui um pouco com a gente!

Quando ela o viu caminhar na direção dela e se jogar no sofá ao seu lado, ela quase desmaiou de alegria; mas ao sentir o perfume que vinha dele, seu coração murchou: era o perfume que Jane usava. Gabi pensou no que os dois estiveram fazendo juntos, e engoliu em seco, desanimada. Olhou para as suas pernas musculosas e grossas que apareciam sob o vestido, e comparou-as às pernas esguias e longas de Jane, que há poucos minutos, deveriam estar enlaçadas em volta de Marvin: aquele pensamento doeu. Doeu também sentir que, pela primeira vez na vida, ela invejava alguém com todas as suas forças. 

Marvin disse;

-E aí, gente? O que está rolando?

Luis disse:

-Nada... estávamos falando de um filme que vimos. Pena que você não estava lá.

Marvin balançou  cabeça, concordando. Tinha os olhos tristes. Luis perguntou:

-E você? Tudo bem?

Marvin pigarreou; deveria contar a eles? Afinal, eram ou não seus melhores amigos? Eram, sim! Por que não se abrir? Pensando assim, ele começou:

-Sim... e não... acho que eu e Jane tivemos nossa primeira grande briga.

(continua...)





segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

AMOR E REVOLTA - CAPÍTULO XI







Assim que Luis chegou de viagem, enquanto desfazia as malas, o telefone dele tocou. Número desconhecido. Ele atendeu:

-Luis?

-Sim. Quem fala?

-Aqui é Gertrude, avó de Marvin e Melissa. Pedi seu número a ela. 

Luis ficou confuso: O que a avó de seus amigos poderia estar querendo com ele?

-Oh, olá, Dona Gertrude! Em que posso ajudar? Está tudo bem com o Marvin?

-Sim, está tudo bem, fique tranquilo. Preciso de sua ajuda para olhar uma coisa na internet. Podemos conversar?

Ele gaguejou:

-C-claro! Estou chegando hoje de viagem. Posso dar um pulo aí.

Marvin sabia onde a avó de seus amigos morava; já tinha passado por lá, embora nunca tenha entrado.

-Não, pode deixar. Eu vou até aí, se não se importa. Meu computador está com defeito.

-Posso levar meu laptop! Também posso dar uma olhada para ver se acho o defeito no seu computador.

Em quinze minutos, Luis batia à porta do apartamento de Gertrude. Ela mandou que ele entrasse, e o rapaz ficou surpreso ao encontrar um apartamento pequeno, mas muito confortável e bem decorado, sem plásticos forrando o sofá e sem milhares de bibelôs bregas sobre a mobília, atravancando tudo, como no apartamento de seus avós. Gertrude tinha um gosto minimalista, e apenas algumas pinturas na parede. O apartamento era limpo, claro e arejado, e Luis adorou o que viu.

Ela trouxe um refresco de manga, e os dois se sentaram na pequena e confortável sala de estar, bebericando o refresco. Gertrude perguntou se ele tinha feito boa viagem – Melissa comentara que ele estivera fora – e após a quebra de gelo, Gertrude disse:

-Bem, eu o chamei aqui porque preciso que me ajude a investigar umas pessoas na internet...

O menino sorriu, confuso:

-Investigar? Como assim?

Ela colocou o copo sobre a mesinha de madeira e vidro:

-Então... é sobre essa nova namoradinha de Marvin. E sua família, e esse amigo deles, o tal Deputado Tavinho. Preciso saber mais sobre ele, pois quero ter certeza sobre onde meu neto está se metendo.

Luis se encolheu na poltrona, involuntariamente. Ela estava pedindo que ele investigasse a namorada de seu melhor amigo. Se Marvin ficasse sabendo, com certeza nunca mais o perdoaria.

-Sabe, Dona Gertrude, eu não sei se é uma boa ideia... o Marvin gosta demais dessa menina. Ele ficaria muito p... zangado comigo se eu fizesse o que a senhora está me pedindo.

Gertrude balançou a cabeça, concordando com ele:

-Ora, mas só se ele ficar sabendo. E eu garanto que não vai! É um segredo. E você estará ajudando seu melhor amigo. Sabe... fiquei sabendo – a Melissa me disse – que meu neto não tem mais estado com você e com Gabi. Vocês sempre foram melhores amigos! Isso me preocupa. E eu sei que a tal de Jane é o pivô dessa separação entre amigos. Preciso saber quem ela é, quem é essa família estranha. O que você sabe?

-Bem, eu sei tanto quanto a senhora. Só fiquei sabendo no início que ele estava gamado na Jane. Só isso. Logo depois eles começaram a namorar e ele se afastou da gente. Mas a Melissa não gosta dela. Pra falar a verdade, nem eu e nem Gabi gostamos. Ela é estranha... não fala com a gente, se comporta como se fosse melhor que todo mundo.

-Ou como quem tem algo a esconder.

Luis estudou o ar pensativo dela, e concordou:

-Talvez.

Ela disse, animada:

-Vamos colher informações. Se for preciso, eu pago pelos seus serviços.

-Ora, não, eu... claro que não, Dona Gertrude. E eu não posso fazer isso...

Ela foi imperativa; encarou-o:

-Quer ajudar seu melhor amigo ou não?

Luis ficou em silêncio, pensando no assunto, enquanto os olhos incisivos de Gertrude pareciam ter o poder de derreter sua pele:

-Bem, então... está bem!

Ela bateu palmas., pegando o seu copo  erguendo-o em direção a ele, que instintivamente, brindou com ela:

-Temos um acordo! Pode começar a manhã. Agora vamos lá dentro. Quero ver se você consegue ver o que há de errado com meu desk top.

E Luis passou pelo menos mais quatro horas no apartamento de Gertrude, formatando seu computador e reinstalando o sistema.

No dia seguinte, em seu quarto, Luis começou a investigação. Gabi e Melissa estavam com ele, as duas esparramadas sobre a cama. Luis contara a elas sobre o plano de Gertrude, e as duas acharam a ideia excelente. Levaram seus próprios laptopts para ajudar nas pesquisas. Os três trabalhavam em silêncio, falando apenas para cruzar informações. Ficou decidido que Gabi investigaria Jane, enquanto Luis procuraria informações sobre o Deputado Tavinho e a ONG, e Melissa acharia o que pudesse sobre Sunny e Paco. Após alguns minutos apenas, Gabi quase gritou:

-Gente! Vejam o que eu achei sobre aquela metidinha!

Os três se juntaram em volta do computador dela:

-Essa menina... ela é... ou ele é... 

Os três disseram quase em uníssono:

-Karaka!

 Gabi largou o computador, ajoelhando-se sobre a cama:

-Ela nasceu com dois sexos! Era menino! Foi operada e escolheu virar menina... será que o Marvin sabe disso?

Luis nem sabia o que dizer, e continuou lendo a matéria enquanto as duas se desmanchavam em “ohs” e “Ahs”. Ele disse:

-Não é bem assim, meninas; ela não nasceu menino, nasceu com os dois sexos. Optou pelo mais 
abrangente, e se quiser, pode até ter filhos, pois tem todo o aparelho reprodutor feminino.

Gabi quase berrou:

-Mas ela é uma aberração! Freak!

Melissa discordou da amiga;

-Não... não é bem assim, amiga. Ela não teve opção. Ela nasceu desse jeito e fez uma opção. Uma escolha inevitável. Seria sujo da nossa parte usar isso contra ela. 

Gabi pensou um pouco, e acabou concordando. Os três ainda discutiram durante algum tempo sobre o que tinham descoberto, e resolveram acrescentar a informação à lista do dossiê que estavam preparando. Alguns minutos mais tarde, Luis chamou as duas: 

-Meninas! Olhem isso aqui!

As duas se ergueram da cama, ficando de pé ao lado da escrivaninha onde ele estava trabalhando: na tela, uma fotografia da sede da ONG Coração Aberto. A reportagem datava de seis anos atrás. Sob a foto, a seguinte legenda: “ONG Coração aberto Sob Investigação – Lavagem de Dinheiro?” Os três leram a extensa reportagem, que dizia sobre as gordas doações pessoais feitas pelo Deputado Tavinho ao longo dos anos, e sobre a descoberta de uma imensa plantação de maconha próxima ao local da ONG, embora ninguém tivesse conseguido juntar provas que conectassem a plantação à ONG. Os três tentaram achar reportagens que pudessem esclarecer melhor o caso, mas após aquela, elas tornaram-se mais raras e menos abrangentes, até que desapareceram, sem que houvesse qualquer menção ao caso nos anos posteriores. Luis investigou o nome do jornalista: Paulo Souza. Ao procurar pelo Facebook do mesmo, descobriu que ele tinha morrido em um acidente de carro há cinco anos. 

Na sua timeline, declarações de pessoas que o conheciam, lamentando o ocorrido, e uma delas fez com que arrepios percorressem as espinhas dos três jovens: “Meu pai foi morto para que não revelasse um grande escândalo envolvendo uma ONG e um certo deputado! Quando haverá justiça nesse país?” Tratava-se de uma declaração de um dos três filhos do jornalista morto. Após comentarem o que tinham acabado de ler, Luis declarou:

-Gente. Vamos para a Deep Web. Tenho uns amigos lá que vão ajudar.

(continua...)





sábado, 6 de janeiro de 2018

AMOR E REVOLTA – CAPÍTULO X








Cadu foi pegar Helena, Teófilo e Gertrude no aeroporto. No trajeto até sua casa, onde Rafaela tinha organizado um almoço de família para recebe-los,  os três se revezavam contando detalhes sobre a viagem e as coisas que tinham feito. A certa altura, Helena perguntou:

-Como está o nosso Marvin?

Cadu não sabia muito bem como responder àquela pergunta, mas disse apenas que ele estava indo bem. As férias tinham começado, e ele passava a maior parte do tempo se divertindo com os amigos. Gertrude vociferou;

-Não vá sufocar o menino com suas preocupações, Helena!

Teófilo respondeu, apaziguando a situação que começava a ficar tensa novamente entre as duas:

-Meninas... não vamos estragar a boa impressão que ficou deste passeio, certo? Vamos mudar de assunto.

Finalmente, após um engarrafamento de meia hora, chegaram em casa. Depois dos cumprimentos, Gertrude imediatamente dirigiu-se ao banheiro principal, dizendo que precisava refrescar-se. Helena pediu para usar o banheiro da suíte, e Teófilo foi sentar-se na poltrona de Cadu, onde começou a ler um jornal. Ele sempre fazia aquilo: era sua maneira de não se aborrecer. 

O almoço de família transcorreu tranquilamente, com todos sentados à mesa escutando as histórias engraçadas sobre a viagem. Pareciam ser como eram antigamente, e aquela constatação causou uma dor fininha em Rafaela, durante uma das pausas para gargalhar das histórias de Gertrudes. Mas havia algo perturbando seu coração e sua mente, e ela sabia bem o que era. Os resquícios do jantar em casa daquele estranho casal ainda soavam um alarme dentro dela: ela deveria tirar seu filho daquele meio o mais rapidamente possível, mas como? Se ela tentasse fazê-lo diretamente, usando sua autoridade, o que poderia acontecer? Marvin já tinha dezessete anos, e provavelmente faria tudo para desobedece-la. E ela temia que ele pudesse tentar se matar outra vez, caso se sentisse pressionado.

Rafaela lamentou ter deixado as coisas chegarem àquele ponto: ficara tão entusiasmada ao ver o menino feliz após tanto tempo, que decidiu ignorar seus instintos de mãe. As coisas tinham ido longe demais, e seu filho estava totalmente envolvido com aquela menina e sua família.
Rafaela não percebia que, do outro lado da mesa, Gertrude a fitava com preocupação também, entre uma história e outra. 

E enquanto ela colocava as louças na lavadora e os demais se distraíam com seus drinks na sala de estar ou assistiam a um filme, Gertrude aproximou-se de Rafaela, enquanto ela trabalhava na cozinha. Carregava uma bandeja com copos usados, que depositou sobre a pia, e a filha imediatamente começou a arrumá-los na lavadora. Gertrude olhou para ela de uma maneira diferente, e Rafaela sentiu que suas barreiras de proteção estavam caindo, até que a mãe finalmente perguntou:

-Vamos lá, Rafaela. Que bicho está mordendo você?

Rafaela achou melhor abrir-se com a mãe.

-É que... ando preocupada com Marvin. Essa menina que ele está namorando, mãe. Fomos convidados para um jantar na casa deles, digo, na mansão deles... são pessoas muito estranhas.

-De que forma?

-Bem, são liberais demais. Diferentes da gente. Perfeitos demais, também, sabe. A perfeição me incomoda, sempre me incomodou. Enfim... são bonitos demais, a casa parece coisa de revista... roupas caras, maquiagem cuidadosamente estudada... sorrisos brancos demais.

Gertrude sorriu:

-Hum... e o que mais? Tenho certeza que isso não é sobre a pasta de dentes que eles usam...

-Bem, a mãe, Sunny, - olha que nome estranho: quem se chama Sunny? – veio me dizer que ela e o marido levam uma vida liberal. Têm um casamento aberto, entende? Saem com quem querem, transam por aí... e que educam os filhos dentro destes conceitos também. Sabe, eu imaginei as festas que os dois dão – ela disse que nos convidará para a próxima.

Naquele ponto, Rafaela parou de falar, começando a limpar a pia com uma flanela úmida, achando que a mãe não deveria saber de toda a verdade. Seria demais para os conceitos dela. Mas Gertrude, que conhecia muito bem a filha, logo percebeu que ela tentava esconder informações, e disse, a voz levemente autoritária:

-E o que há de errado com as festas que eles dão?

Rafaela respirou fundo, encarando a mãe. Seria inútil tentar mentir para ela.

-Festas de nudismo. 


Gertrude cobrou aboca com a mão, baixando os olhos. 

-Meu Deus! E... você sabe se nosso Marvin já participou de alguma?

Rafaela respondeu em voz baixa:

-Quem sabe... provavelmente, sim. Não sai mais daquela casa!

-Filha! Precisamos fazer alguma coisa...

Gertrude começou a andar de um lado para o outro da cozinha:

-Somos uma família cristã... onde já se viu, Rafaela? Festas de nudismo? Sexo livre?
Rafaela imediatamente se arrependeu de ter contado tudo à mãe:

-Fale baixo! Não quero que o Marvin saiba que estamos tendo esta conversa. E nós nem sequer frequentamos a igreja.

-Ora, eu frequento! Vou à missa todo domingo de manhã.

-Mas eu não. A questão não é essa, mãe. São... os valores, tudo o que ensinamos a ele! Fidelidade, moral, compromisso, respeito! E eles estão metidos com um político que eu não gosto, um tal de Tavinho... ele é deputado. Há alguns anos, esteve envolvido com suspeitas de corrupção, mas abafaram o caso, como sempre. Sunny alega que ele ajuda a manter uma ONG que ela administra para ajudar crianças carentes.

-Hum... já ouvi falar dele. Não é flor que se cheire.

Rafaela fechou a lavadora, apertando o botão, e a máquina começou a encher-se de água, enquanto ela se jogou em uma cadeira, a cabeça entre as mãos. Gertrude sentou-se ao lado dela, colocando a mão em seu ombro:

-Filha... vamos todos encontrar uma solução juntos. Somos uma família, afinal. Mas acho que proibir o Marvin de namorar esta menina terá efeito contrário. Precisamos mostrar a ele que ela não é para ele, que é diferente. Para isso, precisamos trazê-la para dentro desta casa. Fazer com que ela conviva mais tempo conosco.

-Mas ela só vem aqui e logo se tranca no quarto com ele. Mal fala conosco, parece nos ignorar!

-Você precisa mudar isso. Puxe conversa com ela. Faça algumas perguntas indiretas, ouça as respostas. Aprenda mais sobre ela, e se preciso, vá a tal festa de nudismo. Colha material de pesquisa, enfim. Aprenda mais, encontre pontos fracos, com certeza haverá muitos. Depois, deixe que Marvin fique sabendo sobre eles. Ponha-os no Google!

Rafaela riu:

-Ora, mãe... fuçar a vida dos outros assim?

Gertrude ignorou-a:

-Com certeza, eles devem ter algum podre. Você disse que estão envolvidos com esse tal Tavinho... deputado. Quem sabe, a tal ONG não serve para lavar dinheiro? Vamos investigar. Vamos fuçar as redes sociais deles. Vamos procurar por sites de notícias nos quais os nomes deles aparecem. 

De repente, Gertrude ergueu uma sobrancelha, esfregando as mãos, e disse:

-Tenho um amigo que pode ajudar.

Rafaela ficou surpreendida pela esperteza da mãe. Que Gertrude era antenada, ela já sabia, mas que conhecia alguém que fazia investigação virtual, era uma surpresa. Ela olhou a mãe dentro dos olhos, como se vasculhasse a verdade:

-Peraí, mãe. Que história é essa? Quem você conhece que investiga esse tipo de coisa?

-Gertrude ajeitou o cabelo com um gesto de mão:

-Ora... não é da sua conta. E não acho uma boa ideia deixar a Helena ficar sabendo, ou ela vai atrapalhar tudo. Bem capaz de querer ir até a casa desta família e armar um escândalo.

Rafaela concordou, achando que aquela seria a reação de Helena.


(continua...)




AMOR E REVOLTA – CAPÍTULO XV

Max e Gabi saíram juntos. Ele se surpreendeu com a conversa dela: diferente das garotas que ele conhecia, Gabi era brilhant...