domingo, 23 de julho de 2017

“A D O Ç A!”








Você pode pensar que amargura é o mesmo que tristeza. Que gente triste é, necessariamente, amarga. Mas não é verdade. Gente triste pode estar se sentindo assim por algum motivo. Na maioria das vezes, a tristeza durará enquanto durarem os motivos, ou enquanto ela for alimentada. Mas o tempo, que é o melhor médico, vem e cura, reestabelecendo as coisas e os sentimentos aos seus lugares corretos. É só deixar que ele haja. É só não se agarrar ao que passou e ao que foi perdido. Porque, se deixarmos que nossos olhos se voltem constantemente para o passado, estaremos fixando residência na segunda fase da tristeza, que é a amargura. Desta, dificilmente alguém consegue se livrar, pois que ela finca suas raízes no coração da gente. Porque a amargura pode ser a segunda fase de uma tristeza não curada. A próxima fase, quem sabe, será a solidão. Não aquela solidão de estar fisicamente sozinho, que pode até ser uma escolha, mas a pior de todas: aquela em que estamos cercados de gente e nos sentimos vazios.

Porém, existe um outro tipo de amargura, que parece ter nascido junto com alguém; quando ainda bem pequenos, esses amargos natos já demonstram sua vocação através das rusgas que estão sempre criando entre as outras crianças; é sempre assim: tudo está em paz, e quando ele chega, começam a aparecer brinquedos quebrados, rostos arranhados, brigas e desentendimentos, lágrimas e queixas. De repente, aquele grupo de crianças que há poucos minutos brincavam e se divertiam, está dividido e choroso, sentados nos colos das mães, enquanto o amargo desfruta sozinho de todos os brinquedos. Este é o amargo nato: espalha fel aonde quer que vá.

Assim nasceu Mara, e o nome que recebeu não poderia ter sido mais apropriado! Na escola, ela nunca tivera problemas em fazer amizades, mas as outras crianças não se aproximavam dela porque gostavam, realmente, de estar com ela, mas porque achavam que assim estariam protegidas contra as investidas da própria Mara. Mas a garotinha cresceu sem saber o que seus amigos falavam quando ela não estava presente.

Mas a vida, que não deixa nada de graça, fez o favor de contar a ela sobre si mesma quando, aos vinte anos de idade, Mara encontrou alguém que a enfrentou e desvencilhou-se dela, expondo as suas fraquezas. Depois daquele dia, ela nunca mais foi a mesma, e precisou de ajuda psicológica. Porque o espelho pode ser a mais terrível das coisas para alguém que nunca olhou para si mesmo de verdade.  
No divã, ela desabafava suas mágoas, dizendo ao seu analista o quanto ela não entendia porque a outra pessoa – que considerava como sendo sua melhor amiga – a tratara daquele jeito. 

Para acrescentar insulto à injúria, Mara descobriu que seu marido tinha outra família, e quando o confrontou, ele foi embora de casa. 

No consultório, Mara dizia que considerava-se alguém bom, correto, e principalmente, sincero. Sentia-se traída e abandonada pelos que amara. Aos poucos, após ficar conhecendo melhor sua paciente, o analista logo percebeu qual era o problema: Mara carregava dentro de si a maldição da amargura. Em suas falas, ela estava sempre se comparando aos outros, destacando o que ela considerava serem seus pontos fortes através do rebaixamento de alguém que conhecia. Quanto mais demonizava as pessoas, mais santa ela se sentia. Mas não era nada fácil tentar fazer com que Mara percebesse aquelas coisas, pois sempre que seu analista tentava, ela erguia um muro de indiferença entre eles e então faltava às próximas sessões.

Após alguns anos de análise, Mara ainda não admitia de onde vinha a raiz de todas as suas agruras, e então abandonou a análise e decidiu-se por entrar para uma religião a conselho da mãe. 

-A religião adoça as pessoas, Mara. Experimente! Após algum tempo, você se sentirá bem melhor. A religião vai transformar você.

A mãe dissera-lhe aquilo após de uma das explosões de raiva de Mara. Ela primeiro desprezou o conselho da mãe, mas uma das palavras que ela escutara, ficaram dançando em sua cabeça, indo e vindo: “Adoça.”  Ela não entendia por que não conseguia parar de pensar naquela palavra. 

Incoscientemente, Mara começou a adoçar demais o café e o suco. Passou a consumir doces desenfreadamente, e durante as madrugadas solitárias, na ausência destes, ela não hesitava: abria a lata de açúcar e comia colheradas generosas. Com isso, sentia-se enjoada, e precisava consumir também algo salgado. 

“Adoça.” Esta era a palavra que surgia quando Mara se sentia invejando alguém. E ela tentava apagar aquele sentimento na confeitaria mais próxima. Infelizmente, a frequência com que se sentia mal em relação a alguém era bem alta, o que fez com que Mara comesse cada vez mais doces, e depois, alguma coisa salgada para tirar o enjoo. 

No templo religioso que frequentava, ela aprendia que as coisas que sentia (e que aprendera a disfarçar muito bem) eram sentimentos nefastos, e cada vez mais, ela se sentia culpada por tê-los tão arraigados dentro dela. Então ela rezava, e participava cada vez mais dedicadamente de todos as cerimônias. Mas quando estava sozinha, se olhava no espelho, Mara descobria, no fundo dos olhos, que dentro dela, nada mudara. Então, ela cobria tudo aquilo com uma grossa camada de açúcar. 

E todos começaram a dizer o quanto ela estava mudada, o quanto era doce, bondosa e feliz. A felicidade passou a ser como alguém que ela mantivesse acorrentada ao pé de uma mesa, e como uma algoz, de vez em quando Mara a cutucava com um espeto, ordenando: “Sorria!” E a felicidade mostrava um sorriso torto e forçado. 

Assim, sob camadas e mais camadas de creme de confeiteiro, açúcar e muito glacé, Mara conseguia (pelo menos temporariamente) sobrepujar sua amargura.





2 comentários:

  1. Ana , a descrição primorosa da amargura você nos dá neste conto . A personagem
    Mara está espelhada na imagem que sabiamente escolheu . Gostei bastante . Agradeço a partilha . Beijos e boa semana .

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  2. Amargura é algo muito triste, a pessoa amargurada parece que carrega uma tonelada, dentro de si e sobre si.

    bjokas =)

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