segunda-feira, 3 de julho de 2017

A MÃO & O LAÇO – CAPÍTULO XII








Logo na manhã seguinte, enquanto eu me preparava para ir trabalhar – Noel teve uma audiência naquele dia e saiu mais cedo – a campainha tocou. Joguei a bolsa sobre o sofá e fui atender. Era Shirley. Ela me olhou da cabeça aos pés, dizendo:

-Não quero atrapalhar. Vejo que está de saída.
-Não, entre... ainda tenho alguns minutos.

Ela entrou, sentando-se no sofá e olhando em volta:
-Nada mudou por aqui. 
-É... decoro os apartamentos e casas de tanta gente e ainda não achei tempo para decorar este. Mas na verdade, não acho que mamãe gostaria que o modificássemos. Ela adora esta mobília. 
-Pensei que vocês tinham ficado com o apartamento!

Eu neguei com a cabeça, sentando-me ao lado dela e checando a hora discretamente.

- Bem, tínhamos a intenção de comprar o apartamento que você está morando... mas você chegou na frente. De fato, amei a decoração! Quem fez?

Ela encheu o peito, com ar brincalhão:

-Eu mesma planejei tudo, comprei tudo pessoalmente. Surpresa? Afinal, você não conhecia esse meu lado, não é?

Pensei que havia várias facetas e vários lados de Shirley que eu nunca conheci e talvez jamais conheceria, mas preferi não dizer aquilo. Ao invés, perguntei-lhe se aceitava um café. Ela agradeceu e recusou:

-Grata, mas também preciso sair... tenho que fazer umas compras. Só vim aqui para pedir uma opinião sua... sabe... é que ando pensando em reunir a turma. Laura, Adílio, eu e você. Como nos velhos tempos. Acha que eles concordariam?

Fiquei um tanto sem graça, pois sabia que a última coisa que Laura desejava, era ver Shirley de novo; mesmo assim, fui delicada:

-Talvez, acredito... que sim, mas você teria que perguntar a eles. 
-É aí que você entra: perdemos contato. Você se importa de fazer esta parte? Quero dizer, explicar-lhes que estou de volta e que desejaria vê-los? Há muitas coisas que eu gostaria de explicar.

Pensei nos motivos que ela poderia ter para desejar rever a todos nós juntos, e no que ela poderia querer explicar-nos. Olhei bem para ela, tentando analisar suas emoções, mas ela parecia um muro impenetrável, apesar de tentar aparentar estar sendo verdadeira... ou seria apenas minha impressão?

-Posso tentar falar com eles, Shirley. Mas não sei se estarão dispostos. Você sabe que o último encontro entre nós não foi muito bom. Nossas últimas... experiências... você sabe...

Ela concordou com a cabeça:

-Eu sei, você está certa. Mas isso tem me perseguido há anos. Toda essa história. Quero pedir desculpas, me retratar. Vocês eram meus melhores amigos. Eu... sinto falta de vocês. Sinceramente. Pense bem, por que eu não estaria sendo sincera? O que mais eu poderia querer? Que mal eu poderia fazer?

Pensei naquelas perguntas antes de responder, o que levou alguns segundos, e não encontrei nenhuma resposta coerente. Ela me olhava, as sobrancelhas caídas para os cantos exteriores do rosto, como ela costumava fazer quando queria pedir desculpas. Quem não a conhecesse, com toda certeza deitaria no chão para ela passar por cima após um olhar daqueles. Respondi:

-Tudo bem, vou falar com eles, mas não posso garantir nada. 

Ela me agradeceu, e saiu. Levei algum tempo me recuperando da presença dela, que parecia sugar todas as minhas energias. Tomei um café preto, e saí para trabalhar. Chegando lá, entre um projeto e outro, contei tudo para Elisa. Ela me ouviu com atenção e disse:

-Ponha logo um final nessa história, Jordana. Ouça o que ela tem a dizer. Pelo menos, tente. Todo mundo merece uma segunda chance.

-Mas não me parece que ela queira uma segunda chance, embora seja isso que ela esteja dizendo. Não sei... ela está tão estranha!

-Pelo que você me conta, ela sempre foi esquisita. Já pensou que ela pode ter algum tipo de distúrbio psicológico? 

-Como assim?

-Sei lá! Shirley pode ser uma psicopata. 

Eu ri alto:

-Não! Nem tanto, Elisa. 

Entrei em contato com Adílio e Laura naquela mesma noite, através do computador. Fiquei feliz ao ver que Patrícia estava linda, muito graciosa, e que ela já me reconhecia, mesmo através da telinha do computador. Nós ficamos conversando durante algum tempo, colocando as notícias em dia, até que tomei coragem e contei a ela sobre a volta de Shirley. Contei a história toda, que agora éramos vizinhas e que ela desejava reencontrar a todos nós juntos. Laura protestou veementemente, mas Adílio acalmou-a:

-Calma, amor. É só a boa e velha Shirley. Estamos vacinados contra ela. Vamos lá ver o que ela tem a nos dizer; eu estou curioso. Você não?

Laura pigarreou – sinal de que estava bem nervosa :

-Na verdade... sim. Mas minha Patrícia vai ficar com a vovó. Não vou levar minha filha para Shirley conhecer. Não confio nela.

Adílio riu:

-O que você pensa que ela vai fazer, amor?

Noel respondeu:

-Jogar um feitiço contra a menina, talvez? Eu, que nunca vi essa tal de Shirley pessoalmente, já estou com medo dela.

Todos rimos, mas logo depois, ficamos sérios, e o silêncio desceu. Eu sabia exatamente no que eles estavam pensando. Antes de Laura me perguntar sobre o caso de Diana, eu já sabia o que ela ia dizer. Respondi:

-Acho que arquivaram. Nada foi descoberto, e Pedro continua desaparecido.
Laura perguntou:

-Você não acha que ela talvez saiba onde o pai está?

Aquela possibilidade me pareceu ridícula:

-Claro que não! Por que ela o esconderia?

-Ele é pai dela, Jordana. Ela sempre usou isso para se justificar de não tê-lo entregado à polícia.

-Mas ao mesmo tempo, não hesitou em chantageá-lo e arrancar dinheiro dele – Adílio acrescentou. 

Pensei que Shirley era mesmo uma incógnita...

-Não sei como vai ser morar aqui perto dela, amigos... acho que vamos ter que acabar indo embora daqui. Eu... não quero ter que correr o risco de esbarrar com Shirley todos os dias no corredor ou na portaria. 

Laura disse;

-Eu já teria começado a procurar outro lugar para viver se fosse vocês.

Estudei aquela possibilidade por alguns segundos:

-É... acho que é o que vai acabar acontecendo! Quando falei com mamãe sobre a volta de Shirley e onde ela estava morando, ela pensou em vender o apartamento. Minha mãe nunca gostou dela. Nem minha avó. As duas estão escandalizadas com a volta dela. Bem, posso dizer a ela que você aceitam vir, então?

Eles concordaram, e nos despedimos. Telefonei para Shirley dizendo que eles viriam, e ela pareceu muito feliz. Agradeceu-me efusivamente, com a voz chorosa:

-Logo vocês vão entender tudo, e quem sabe, sejam capazes de me perdoar então. 

E o grande encontro se deu em uma noite enluarada de sexta-feira. Noel, dizendo que não tinha nada a ver com aquilo, achou melhor ir ao cinema com Elisa e Breno, e disse que depois iriam jantar fora e demorar bastante. Nem quis ficar a fim de conhecer minha tão falada amiga. Disse que ter visto suas fotografias já era o suficiente. 

Eu cheguei ao apartamento de Shirley primeiro, às sete e trinta da noite, como combinado. Adílio e Laura estavam atrasados. Ela mesma abriu a porta, segundos após eu tocar a campainha, dando-me a impressão de que nos aguardava ansiosamente. 

Shirley tinha colocado uma linda mesa de jantar, e usava um vestido bege claro caseiro e sandálias rasteiras, mas o vestido simples e de corte reto apenas ressaltava sua elegância.  Usava os cabelos soltos, e uma presilha de pedrinhas coloridas imitando borboletas de cada lado da cabeça, o que lhe dava um ar ingênuo. Achei que aquele toque fora proposital, e apenas olhando as presilhas superficialmente, dava para notar que eram feitas de pedras preciosas caríssimas. 

Uma música suave tocava baixinho, e luzes indiretas davam ao local uma sensação de conforto e aconchego. Apenas sobre a mesa de jantar havia uma luz um pouco mais forte, e algumas velas acesas sobre candelabros de prata. Ela me recebeu com um abraço, conduzindo-me ao sofá. Fiquei contente por ter escolhido um belo vestido, elegante e simples como o dela, na cor branca. O colar longo de pérolas dava o toque final. Eu estava bonita, e sabia disso. 
Ficamos conversando amenidades, até que não resisti mais e perguntei:

-Shirley... você disse que nos convidou porque tem algo a nos dizer. Posso saber de antemão do que se trata? Estou curiosa. 

-Você vai saber, amiga... posso chama-la assim, ainda? Mas na hora certa, quando todos estiverem presentes. Enquanto isso, me fale de você! O que tem feito? Quais os seus planos?

Não me sentiria nada à vontade de conversar com Shirley sobre aqueles assuntos, como se fossemos apenas duas velhas amigas colocando os assuntos em dia, e fui salva pela campainha. Quase gritei:

-Devem ser eles! quer que eu vá abrir?

Mas antes que ela respondesse, um senhor altivo apareceu e cruzou a sala silenciosamente, indo abrir a porta. Ela me disse, ao ver meu olhar impressionado:

-Este é Reginaldo, meu mordomo. Ele vai servir o jantar. Ora, por que a surpresa? Tenho certeza de que você já teve um mordomo!

Reginaldo dirigiu-me um aceno de cabeça discreto, que eu correspondi da mesma forma, e abrindo a porta, conduziu nossos amigos sala adentro. Levantei-me e abracei Laura calorosamente, e também Adílio. Eles ficaram de pé olhando para Shirley, que aguardava sua vez de cumprimenta-los. Ela hesitou, mas estendeu os braços em direção de Laura, que apenas esticou-lhe a mão friamente. Shirley fez um ar magoado, mas cumprimentou-a, e depois olhou para Adílio, que a estreitou nos braços, diante do olhar indignado da esposa. 
Nós nos sentamos, e Reginaldo serviu-nos drinks maravilhosos. O ambiente era constrangedor, devido a não aceitação de Laura. Enquanto isso, eu, Shirley e Adílio tentávamos manter uma conversa forçosamente animada, mesmo diante da cara amarrada de Laura. Finalmente, Shirley olhou-a, perguntando diretamente a ela:

-Soube que vocês tem uma filha. 

Laura respondeu friamente:

-Temos. 

Shirley ficou aguardando ela continuar, mas Adílio salvou a situação:

- Temos sim, ela se chama Patrícia e é linda!

-Pena que ela não veio... adoraria conhece-la!

-É, mas como viajamos no final da tarde, achamos que ela ficaria cansada. Está um pouco gripada, e ficou com a avó. Quem sabe, uma outra vez?

Laura fuzilou-o com o olhar, tomando um grande gole de seu drink. Shirley concordou com a cabeça, e dirigindo-se novamente a Laura, disse:

-Laura, será que você nunca vai me perdoar? Vai querer dizer que nunca errou, nunca mentiu?

Aquela pergunta deixou um rastro de pólvora no ar, principalmente pelo tom de voz rascante de Shirley. Eu e Adílio nos olhamos, impotentes, aguardando o pior, mas Laura respirou fundo e disse, com a voz fria e controlada:

-Mentir? Sim, é claro. Quando eu era criança menti algumas vezes. Mas nunca menti sobre desaparecimentos, assassinatos e abusos sexuais.  E nunca menti para as pessoas que considerava minhas amigas, fazendo-as sentir como se fossem tolas, e ainda por cima, usadas! Realmente, Shirley, se eu estou aqui hoje, é por dois motivos: curiosidade e a pedido do meu marido. Não é porque pretendo reatar a nossa amizade. 

Aquilo nos deixou boquiabertos. Adílio tossiu, e eu acabei com meu drink de uma só vez. Shirley olhou-as em silêncio, tentando absorver o impacto de suas palavras, e depois, como se nada houvesse acontecido, anunciou:

-Vamos todos jantar! Mandei preparar um prato especial que tenho certeza que vão adorar!

O jantar decorreu sob uma paz forçada, risadas forçadas e conversas forçadas, entrecortadas por longos períodos de silêncio. Laura não disse uma palavra, e mal tocou na comida. Reginaldo tentava ser invisível enquanto nos servia, e quando o jantar terminou, ele serviu a sobremesa – que ninguém quis comer – e depois, quando fomos nos sentar no sofá novamente, ele nos trouxe uma bandeja de café e licores, desaparecendo. 

Shirley parecia nervosa. Eu nunca a tinha visto daquela forma, e quando ela me tocou a fim de me servir a xícara de café, notei que estava gelada. Tomamos o café com gosto, e aguardamos. Decidi quebrar um pouco o gelo:

-A refeição estava ótima, Shirley. 

-Obrigada. Sabia que iam gostar.

Adílio balançou a cabeça, concordando com um sorriso, e Laura olhou para o teto, impaciente. Achei a atitude dela imatura e mal educada, mas nada disse.
 Finalmente, após Reginaldo recolher as xícaras, Shirley – que torcia as mãos nervosamente – começou a falar sobre o motivo daquele jantar. Toldos silenciamos e olhamos para ela, ouvindo-a atentamente . Até mesmo Laura tinha os olhos grudados nela.

-Bem, vamos ao motivo deste jantar... é claro que um dos motivos foi rever a todos. Eu estava com saudades, e pensei muito em todos nós durante esses anos de afastamento. Isso pode soar estranho, eu sei. Minha vida mudou muito... nosso último encontro não foi dos melhores... por isso eu nunca os procurei. Mas acho que já passou da hora de colocarmos uma pá de cal sobre essa história toda, esse mal entendido. Bem, para começar: eu não matei Diana. 

Laura disse:

-Mas sabe quem o fez, não é? E o protege.

Adílio começou a censurá-la quando a própria Shirley o interrompeu:

-Não, Adílio; ela tem razão. Eu sei quem matou Diana, e venho escondendo-o durante todo esse tempo. Não com a intenção de protege-lo, mas... porque... eu não posso, é mais forte que eu, não posso entregar meu pai à polícia!

Todos nós nos entreolhamos, espantados pela revelação dela – mesmo que estivéssemos esperando exatamente por aquilo. Todos suspeitávamos de Pedro. Mesmo assim, não pudemos deixar de nos surpreendermos. Me precipitei:

-Onde ele está?

Ela me olhou. Tinha os olhos rasos d’água.

-Fora do país.

Eu insisti:

-Conte-nos mais sobre aquela noite, Shirley.

Ela serviu-se de uma taça de licor, e nós recusamos a bebida. Shirley bebeu de sua taça, enchendo-a novamente duas vezes. 

-Naquela noite, eu estava andando pela rua, perto daquele bar onde Diana me viu com meu pai. Esperava por ele do lado de fora, pois não queria ficar lá dentro sozinha. Só há bêbados e gente inconveniente. Ela me viu. Na verdade, eu a vi primeiro, mas fingi não ver. Mas sabia que ela estava escondida atrás de um poste, me observando do outro lado da rua. Meu pai chegou, e entramos. 

Começamos a conversar. Vi quando Diana nos observava através da vidraça do bar. Comentei com meu pai sobre ela, mas ele não a olhou, disse que resolveria aquilo depois. Achei que ele queria dizer que falaria com ela, mas não foi isso que ele fez...

Bem, ele me entregou a maleta com o dinheiro e disse que aquela seria a última vez, pois estava indo embora do país. Fiquei furiosa; afinal, minha fonte secaria. Mas eu já tinha uma boa quantia para recomeçar minha vida... sabem, eu não queria esperar que o marido de mamãe morresse para pôr a mão no dinheiro. Eu precisava dele naquele momento. A escola estava terminando e eu queria fazer faculdade, me mudar da cidade. Meu padrasto se recusava a me ajudar. E minha mãe não me dava nenhum apoio.

Bem, ele me entregou a maleta. Nós saímos do bar. Diana estava virada de costas para nós, falando ao telefone, e não viu quando nos aproximamos dela. Ela ficou muito surpresa ao nos ver. Meu pai segurou-a pelo braço, obrigando-a a entrar no carro dele. Ela bateu a cabeça com força quando entrou no carro, por isso acharam aquela contusão na testa dela. Não foi meu pai quem bateu nela. Bem, ele dirigiu até perto da represa para que pudéssemos conversar. Diana protestava, eu disse a ela que ninguém lhe faria mal nenhum, mas ela estava muito nervosa.
Chegando lá, saímos do carro.

Eu a interrompi, perguntando:

-Por que escolheram um local tão afastado para conversar apenas?

-Porque meu pai não queria ser visto. Ele dizia, no carro, que só queria despedir-se de Diana e de mim. 

-E por que ele não a chamou para dentro do bar quando a viu?

-Porque ele não queria chamar mais atenção sobre ele do que o necessário! 

Ficamos lá apenas alguns minutos... só o tempo de entregar-me o dinheiro e sair.

-E por que ele não fez aquilo do lado de fora?

-Porque estava sendo procurado pela polícia por abuso de menor! O carro que usava tinha sido roubado também. Estava parado sob uma árvore, do outro lado da rua, em um terreno baldio...

Ela parecia estar revendo as cenas das quais falava. Ela continuou:

-Bem, meu pai parou o carro junto a represa... tinha chovido, e ela estava bem barulhenta. A testa de Diana estava bastante inchada após a batida. Meu pai nos disse que cometera muitos erros na vida, mas que o pior deles, fora contra nós duas. Que ele nos amara, um dia, mas que a bebida o transformara. Pediu-nos desculpas. Foi tudo meio- surreal, acho. Aconteceu muito rápido: ele ergueu a mão em direção a Diana a fim de ver o hematoma em sua testa. Ela deu um passo para trás, e caiu lá em baixo. Ele ainda chamou por ela, mas Diana, que não sabia nadar, caiu dentro da represa. Ela afundou. Ficamos olhando, impotentes... não havia nada que pudéssemos fazer a respeito. Esperamos, para ver se ela reapareceria, mas ela não apareceu... estava escuro. Começou a chover, e fomos embora.

Laura começou a bater palmas lentamente, de maneira sarcástica, dizendo:

-E isso foi tudo? Deixaram ela lá, não avisaram a ninguém... você acha mesmo que acredito nessa história, Shirley!

Shirley continuou:

-O que poderíamos fazer? Não tem como e entrar lá! É uma parede de concreto de vários metros de altura! 

-E por que você não comunicou à polícia?

-Eu... estava esperando que meu pai conseguisse os documentos falsos para sair do país... mas o corpo dela foi encontrado antes. Eu queria que ele fosse embora antes que encontrassem o corpo, pois eu sabia muito bem que ele seria o principal suspeito, quando eu mesma estava lá e vi que ele não teve culpa nenhuma. Por que ele deveria voltar para a cadeia por algo que não tinha feito?

Eu não podia acreditar no que estava ouvindo. Shirley estava defendendo o homem que abusara dela e da irmã na infância, que maltratara sua mãe! Gritei:

-Mas ele estuprou você e Diana várias vezes! Será que isso não seria motivo suficiente para manda-lo para a cadeia?

Ela começou a chorar. Os ombros de Shirley sacudiam-se, e ela tinha as mãos sobre os joelhos, a cabeça baixa. Achei que ela não poderia estar fingindo aquilo. Adílio sentou-se ao lado dela, tentando acalmá-la, o que fez com que Laura ficasse vermelha de raiva. Após alguns minutos, Shirley continuou:

-Vocês não compreendem! Naquela noite, no carro, ele nos contou que ele próprio foi vítima de abuso quando criança. E vocês nem imaginam as coisas pelas quais meu pai passou! Batiam nele... a mãe e o pai... ele era amarrado enquanto adultos o tocavam... ele passou por coisas terríveis, e não sabia como lidar com elas, e então ele conheceu a mãe de Diana... uma prostituta drogada que acabou com a vida dele para sempre. Eu sempre odiarei aquela mulher,  não importa o que digam!

Ela virou-se para mim:

-Quando eu soube que você e sua mãe a estavam ajudando, eu juro, Jordana, que odiei vocês duas! Mas depois compreendi que pessoas como vocês não podiam agir diferente. Vocês cresceram em um mundo diferente do meu. Do nosso. Vocês eram... boas pessoas. Só conheceram o lado mais bonito da vida. Eu invejava você, eu queria ser como você.

Fiquei boquiaberta, sem saber o que dizer. Se Shirley alguma vez dissera a verdade, aquela era a vez. 

-Meu pai nos disse que ele iria sair do país e procurar ajuda. Ele queria ter uma nova chance. Ora, se aquela vagabunda teve uma, por que não meu pai?

Laura observou:

-Mas mesmo sendo assim, tão... solidária com ele, você não deixou de aceitar dinheiro dele e chantageá-lo, não é? Que paradoxo!

Shirley fechou os olhos, apertando-os. Quando ela os abriu novamente, segundos depois, olhou para Laura tristemente. 

-Naquela mesma noite, eu devolvi ao meu pai a mala com o dinheiro. E mais tarde, devolvi todo o resto, que eu tinha colocado em um local escondido em meu quarto. 

-Então... você esteve com ele novamente? – Adílio perguntou.

Ela concordou com a cabeça:

-Sim. Eu o ajudei. Levei-lhe os documentos para fugir do país, quando ficaram prontos. Ele ficou escondido no porão da nossa cabana de pesca, naquela floresta. Quase ninguém sabia que havia um porão. Era bem escondido. Subterrâneo, e a entrada ela pela floresta, através de um túnel. Eu levava-lhe comida... ele ficou lá durante cinco dias após a descoberta do corpo de Diana. 
Minha memória trabalhou rápido. Sim, houve uma época na qual Shirley desaparecia por dias a fio. Então ela estava com Pedro. 

Adílio perguntou:

-Onde ele está agora, Shirley?

-Ele tem uma nova vida. Casou-se de novo. Ele fez uma histerectomia, eles não têm filhos. Meu pai... ele mora em algum lugar em Bogotá. Uma casa afastada. E ele tem um outro nome, uma nova identidade. Deixou a barba crescer. Fez uma plástica no nariz e na boca, tingiu o cabelo. Engordou uns vinte quilos.  Está irreconhecível. Acho que ele é feliz hoje, da maneira que descobriu ser possível. E ele faz tratamento, está vendo um psiquiatra. 

Laura arregalou os olhos:

-Então vocês ainda se encontram?

-Sim. Eu viajo até lá nas férias... eu o perdoei. Convivemos muito bem hoje. E eu gosto muito da nova mulher dele. 

-Ela sabe de tudo?

Shirley me olhou, muito séria, quando fiz a pergunta:

-Ela não sabe de nada. E nunca saberá. 

Ela se levantou, e pediu que esperássemos enquanto foi buscar algo em seu quarto. Ficamos esperando por ela, em silêncio, olhando para os desenhos complicados do seu tapete caríssimo, que pertencera à minha avó. Ela retornou segurando uma caixa.

Sentou-se novamente, abrindo-a. começou a retirar várias cartas, que entregou a nós. Os selos eram da Colômbia. Eram cartas de Pedro. 
Começamos a ler algumas, e nelas, ele dizia estar bem. Perguntava por Shirley, quando ela iria vê-lo. Enfim, as cartas confirmavam toda a história contada por ela. Havia fotografias do homem que ela acabara de nos descrever. Ele às veze parecia ao lado de uma mulher mignon de cabelos escuros, meio-gordinha, e muito sorridente. Havia também fotos dele e de Shirley juntos. 
Olhamos tudo, e ficamos calados. Shirley disse, a voz sumida:

-Eu só queria que vocês me perdoassem. Eu só queria andar por aí de cabeça erguida, sabendo que não sou julgada, que as pessoas acreditam em mim, e que elas me perdoaram pelo que eu possa ter feito de errado, e eu sei que eu errei muito. A única coisa que eu queria era saber que vocês não me odeiam, e que se lembrarão de mim com carinho. 
Nós erguemos os olhos das fotografias:

-Nos lembraremos de você? – perguntou Adílio. – Por que nos lembraremos, se você está aqui, se você voltou?

Ela deu um longo suspiro:

-Não vim para ficar. Eu vim para me despedir.

Engoli em seco, achando que Shirley pudesse estar doente. Quase verbalizei minha pergunta, mas Laura interrompeu meu pensamento:

- E para onde você vai?

-Para bem longe, Laura, não precisa se preocupar. Não volto nunca mais. 
Laura pareceu um tanto sem-graça, e baixou os olhos. Senti que as feições dela suavizaram-se, e então ela disse:

-Shirley... eu sinto muito por tudo. Eu, você e Adílio éramos amigos de muitos anos na escola. Eu entendo porque você não nos contou muitas coisas. Entendo porque você inventava tantas histórias... só agora eu entendo. E saiba que não preciso perdoar você, não há o que perdoar. Mas acho que você deveria esclarecer o que houve à polícia.

Shirley negou com a cabeça: 

-Agora não. Mais tarde. Porque se eu o fizer agora, terei que responder a várias perguntas que não quero, e que atrapalharão a vida de meu pai. Mas um dia, farei isso, pode acreditar. Tudo a seu tempo, Laura. Tudo a seu tempo. 

Laura ia retrucar, mas Shirley cortou-a:

-Eu prometo a vocês que contarei tudo. Mas na hora certa. Preciso que confiem em mim. Qual seria o bem, falar nisso agora? Diana está morta, sua mãe está morta e ninguém liga de verdade. Elas não tinham nenhum parente, a não ser... eu. Preciso que vocês me deem tempo. 

Eu, Adílio e Laura nos entreolhamos, e consentimos ao mesmo tempo. Shirley nos agradeceu efusivamente, e a tensão do ambiente começou a ser aliviada. Ainda ficamos por lá durante algum tempo. 
Quando voltei para casa, contei tudo ao meu marido. Ele me ouviu, ficando impressionado;

-Nossa... essa história daria um filme. Ou um livro. Gostaria de conhecer essa figura pessoalmente.

Sonolenta, aconchegada nos braços dele, ainda consegui dizer:

-Amanhã eu apresento a Shirley a você.

Mas na manhã seguinte, ela não estava mais lá. 

(...continua...)









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“A D O Ç A!”

Você pode pensar que amargura é o mesmo que tristeza. Que gente triste é, necessariamente, amarga. Mas não é verdade. Gente...